
Sign up to save your library
With an OverDrive account, you can save your favorite libraries for at-a-glance information about availability. Find out more about OverDrive accounts.
Find this title in Libby, the library reading app by OverDrive.

Search for a digital library with this title
Title found at these libraries:
Library Name | Distance |
---|---|
Loading... |
Excerto:
HOMEM AZUL
.1.
Anacleto Parreirinha jura que ouviu os assobios de um guarda-rios naquele fim de tarde. É o que ele diz. O homem estava a terminar um muro de pedra e o bicho passou-lhe por cima do boné aos quadrados e assobiou. Sete vezes. Sete. Diz ele. Quando regressou a casa, desabafou com a mulher: "Não queres saber que ouvi um guarda-rios esta tarde?" E a mulher, enquanto que lhe punha o caldo na malga, atirou: "Pode lá ser! Já não se vê disso em Águas Santas desde... Ah, sei lá eu desde quando... Desde que a Fonte Santa secou!" Anacleto encolheu os ombros e comeu a sopa em silêncio.
Ao mesmo tempo, do outro lado da aldeia, um homem alto, de mochila às costas e chapéu de aba larga, entrava na Pensão Florinda, o único estabelecimento hoteleiro que restava em Águas Santas, e pedia um quarto.
Idalina Montevelho, que herdara a pensão do marido, falecido numa guerra longe dali, disse-lhe os preços.
O homem colocou uma bolsa sobre o balcão.
"Isto chega para quanto tempo?" quis saber ele, na voz lenta de quem aprendeu as palavras há pouco tempo.
Idalina limpou as mãos ao avental, abriu a bolsa, contou o dinheiro, e abrindo os olhos de espanto, declarou:
"Isto dá para ficar no nosso melhor quarto durante duas semanas!"
"Nesse caso, quero ficar no vosso melhor quarto durante duas semanas," afirmou o homem, com um indefinível sotaque estrangeiro.
«Um turista,» pensou Idalina. Há quanto tempo não se via um turista na aldeia? Idalina não sabia. Por aqueles dias, para além dos dois caixeiros viajantes que visitavam Águas Santas, ninguém mais ali ficava. Não se lembrava da última vez que um cliente entrara assim na pensão e pagara adiantado uma estadia de duas semanas. Talvez no tempo do sogro? Certamente não desde que a Fonte Santa tinha secado.
Sem mexer na bolsa do dinheiro, Idalina abriu um velho livro de registos e pediu:
"O seu nome, por favor."
O homem fez uns sons que Idalina não conseguiu perceber.
"Desculpe," disse ela, "podia repetir? Isso é estrangeiro?"
O cliente repetiu os mesmos sons. Idalina fez um esforço.
"Alfredo Matias?" acabou por perguntar.
O homem hesitou por um momento. Por fim, respondeu:
"Sim, pode pôr Alfredo Matias."
A jovem mulher anuiu com um aceno de cabeça, agitou a velha caneta de tinta permanente e escreveu o nome – pacífico para os seus parcos conhecimentos de ortografia.
"E de onde é, Sr. Matias? Também é preciso pôr de onde vem."
O homem hesitou novamente.
* Fim do excerto *